sábado, 29 de setembro de 2012

CAMPANHA CONTRA O CÂNCER DE MAMA


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

VIVER SOZINHO EM PORTUGAL

Número aumentou 37,3% nos últimos dez anos

Queremos viver sozinhos

02.09.2012 - 12:17 Por Raquel Albuquerquer

 Viver só não é necessariamente sinónimo de solidão. Dentro do número de famílias de uma só pessoa em Portugal - que triplicou desde 1960 e aumentou 37,3% nos últimos dez anos - há histórias de quem gosta de ter um espaço só para si. Viver sozinho pode ser uma escolha, uma descoberta ou uma libertação.
A vizinha do lado bate-lhe à porta todos os dias pouco depois das sete da manhã. Não é sequer preciso abrir: basta dar sinais de vida, gritar que já está acordada e cada uma segue o seu dia. A essa hora, normalmente, a música até já está "a trabalhar bem alto" em casa de Nazaré Silva, como conta, um dia antes de fazer 83 anos. O ritual entre as duas vizinhas repete-se durante a semana, por vezes com variações. Há um tempo encontrou um papel no corredor, que tinha entrado por baixo da porta: "Nazaré, vou tomar banho", era o que estava escrito. "Depois fui ver dela e até dei o papel de volta para não ter de gastar outro."

Ambas vivem sozinhas no centro de Lisboa, uma no lado esquerdo, outra no lado direito de um andar num prédio de quase cem anos. "Solidão" não é palavra que se sobreponha aos dias de Nazaré. Pelo menos agora: vive-os com o orgulho de ter aprendido a estar sozinha e preza a autonomia com que gere o tempo.

Esse tempo passou a estar mais livre desde que se reformou, como recepcionista num consultório médico, e já tinha 76 anos. Por insistência da família, inscreveu-se nas actividades da Junta de Freguesia. "Há lá velhotas assim com a minha idade. Todos os dias, à tarde, há aulas diferentes. À terça-feira é [tapetes de] arraiolos, à quinta é ginástica, depois os computadores. Também há "chicongo ioga" [Chi Kung]." Conta como foi dando mais liberdade aos dias: "Dantes", depois das aulas, ia para casa. "Agora vou ao cinema. Tenho um grupo muito engraçado, às vezes vamos para o café, conversamos, elas bebem umas cervejas, eu não. Antes de ontem até fui jantar fora ao chinês." Jantar fora já significa chegar a casa mais tarde, à uma e meia da manhã, depois de apanhar o último metro no centro de Lisboa. Foi o que também aconteceu no dia de Santo António, por ter ficado a ver as marchas. "Eu nunca saía a essas horas. Agora, quando chego a casa, tenho de avisar as minhas filhas, que ficam à espera que eu lhes ligue."

A pausa nas aulas, trazida pelo Verão, levou Nazaré Silva para uma colónia de férias: praia durante a manhã, na Costa da Caparica, almoço no bar da praia, passeios à tarde. Ficava com o fim do dia para tratar das compras e das limpezas da casa, tudo a seu cargo. "Corro tudo para fazer as compras, até vou ao Lidl do Sporting porque o autocarro pára em frente. E entretenho-me muito em casa, limpo é sempre o mesmo", ri. "Vejo televisão, faço renda. Às vezes, vou dormir à meia-noite porque vou à Internet." É que as tecnologias também já não lhe são totalmente estranhas: usa telemóvel - ainda que diga deixá-lo por vezes esquecido na mala - e tem email e Facebook.

As trajectórias e fases da vida de quem vive sozinho podem ser muito distintas. Rosário Mauritti, socióloga, investigadora no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL) e autora do livro Viver Só, compara essas realidades. "Os idosos começam a viver sozinhos não por opção. E esse viver sozinho tem fases: um autofechamento e depois a descoberta da libertação", disse à revista 2. Nas mulheres, e nos casos decorrentes de viuvez, é uma "espécie de descoberta de que afinal são capazes", sobretudo as que viveram muito tempo limitadas pelos pais ou pelos maridos.

Nazaré vive ainda na mesma casa onde nasceu, casou e teve duas filhas. Ali, em momentos diferentes, já viveu com toda a família mais próxima. Para quem visita a casa, as fotografias em molduras, penduradas nas paredes ou pousadas nas cómodas, dão a conhecer quem já lá passou: os pais, o irmão e o marido, nas fotografias ainda a preto e branco; as duas filhas, os genros e os netos, nas que já são a cores.

Perdeu a mãe cedo, tinha oito anos. "Agora até me rio com isso, mas, na altura, chorava e perguntava: e agora quem é que me vai coser as meias?" Para ajudar em casa, o pai arranjou uma empregada. "Chamava-se Margarida, o nome da minha mãe. Nunca me deixava andar sozinha, mas eu pedia-lhe: "Deixa-me ir só do Arco do Cego à Estefânia." Uma vez lá deixou e eu fui descer a rua sozinha."Aos 21 anos, deixou o pai nervoso quando lhe falou num namorado. "Ele estava estabelecido aqui na rua, era da drogaria. Achava-lhe graça, mas eu nunca andava sozinha. Um dia fui à drogaria com a minha prima. "Oh senhor José, precisava de um bico para o fogareiro." E ele pediu-me em namoro."

Casaram e ficaram a viver em casa dela. Tiveram duas filhas, que ainda eram pequenas quando, aos 33 anos, ficou viúva, um ano depois da morte do pai. Foi aí que a vida deu uma volta: pela primeira vez estava por sua conta. "Fui trabalhar para um consultório aos 34 anos. Ia às cegas e chorava, nunca tinha trabalhado na minha vida. Fiquei lá 42 anos."

Não voltou a casar-se. "Segui o exemplo do meu pai e só me casei uma vez." Mesmo assim, a presença das filhas, dos genros e dos três netos não a deixou sozinha em casa, até aos 81 anos, quando o último neto se mudou. "Houve um tempo em que me custou. Tinha sempre cá tido gente em casa e fiquei sozinha de repente." Foi preciso adaptar-se. Mas, dois anos depois, a conversa é diferente. "Gosto muito da casa das minhas filhas, mas não há nada como a minha. Faço o que quero e me apetece."

O número de famílias de uma só pessoa aumentou 37,3% nos últimos dez anos, de acordo com os dados provisórios dos Censos 2011. Entre 1960 e 2011, triplicou (de aproximadamente 254 mil famílias unipessoais para 868 mil), embora neste indicador estatístico também estejam incluídas pessoas independentes, sem grau de parentesco entre si, que partilham alojamento.

Recuando a 1960, desce para 11 em 100 o número de famílias de uma só pessoa, contrastando com o peso das famílias de duas pessoas (20%) e de seis (17%). Hoje em dia, em cada 100 famílias portuguesas, 21 são constituídas por uma só pessoa, um número inferior ao das famílias de duas pessoas (32%), mas consideravelmente acima das famílias com mais de cinco (6%).

Maria das Dores Guerreiro, socióloga e coordenadora pelo CIES-IUL do Observatório das Famílias e das Políticas de Família, destacou num artigo publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas, em 2003, os múltiplos trajectos sociais de quem vive sozinho. Sejam os idosos que enviuvaram, "os adultos que, por opção, ou não, permaneceram sós e que, podendo já ter vivido em casal, passaram por situações de ruptura conjugal", ou as novas gerações "em transição para a vida adulta".

As diferentes realidades entre um idoso e um jovem a viver sozinhos resumem, em parte, aquilo que separa as histórias de Nazaré Silva e Susana Pires. Antes de fazer 25 anos (agora tem 27), Susana saiu de casa dos pais em Almada e mudou-se para Lisboa. Primeiro, por uma questão prática: viver perto dos sítios onde trabalha. Mas não era só isso. Já tinha acabado o curso em História, estava a fazer um mestrado em Teoria da Literatura e trabalhava no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian e como tradutora para duas editoras. "Queria muito ter o meu espaço para ler e escrever. Uma cabana para pensar. Ia poder fazer tudo o que nunca tinha conseguido fazer", lembra. "Mas tive medo que fosse uma ilusão, uma coisa romântica."

Começou por pensar em partilhar casa e acabou por comprar uma no centro histórico de Lisboa. "Vou estar a pagá-la aí durante uns 50 anos", ironiza. "Mas este é um espaço que é meu. Nada na forma como habito a minha casa é indiferente, há um valor afectivo nas coisas. Por exemplo, tenho aquela tendência, desde pequena, de deixar sempre o melhor para o fim. Por isso, deixei para o fim arrumar os livros nas prateleiras." A mudança não lhe custou, até porque, diz, nunca teve problemas em estar sozinha, talvez por ser filha única. Teve de ir pedindo alguma ajuda à mãe, para escolher detergente ou o programa da máquina da roupa, para fazer a primeira sopa. E a casa - com dois gatos - passou a fazer parte do seu ritmo de vida. Opta por não ter televisão, da mesma forma que escolhe não cozinhar todos os dias ou que prefere perder uma hora de sono para poder ler todas as noites, porque sente que a leitura é uma parte central da sua identidade.Agora, admite que existe um risco. "Ganha-se a propriedade do espaço e não se quer abdicar disso. Gostar de viver sozinho faz com que se goste daquele espaço que é da nossa autoria e torna-nos mais intransigentes. Vai ser mais difícil viver com alguém", admite. Ainda que aos poucos a ideia lhe pareça mais possível.

Num relacionamento anterior, ela e o namorado optaram por viver em casas separadas, cada um testando por si o que significava viver só. E é aqui que sublinha como viver sozinha não significa sentir-se sozinha. Pelo contrário, essa liberdade - ou o que a socióloga Rosário Mauritti define como "a ausência de balizas quotidianas", a que a partilha de casa habitualmente obriga - faz com que os amigos sejam presença assídua na casa na Bica. "Adoro tê-los em casa. Não é a mesma coisa do que combinar um jantar fora. E aquela afectividade que tenho com os objectos faz com que eu goste de os ver usar os meus talheres ou até sujar a toalha."

Abrir a casa aos amigos é algo que Susana Pires tem em comum com Ricardo Santos, 29 anos. Receber quem quer em casa, sem dar explicações, é uma das formas como traduz a liberdade que sente. Mas há outras. "Se me apetece ir ao ginásio, andar de mota ou ler, é isso que faço. Outros dias, só quero silêncio, chegar a casa, fazer o jantar, deitar-me no sofá e ver filmes." Só que viver sozinho também tem as suas exigências e uma delas é tratar da casa. "Sou eu que faço tudo, seja montar cortinados, cozinhar, o que seja, limpezas e tudo." Ou quase tudo. "Só há uma coisa que já tentei fazer e não consigo: passar as camisas a ferro. Tenho um senhor que as vem buscar a casa. De resto, passo tudo."

Já tinha pensado em partilhar casa com amigos, mas não tinha sido mais do que uma ideia passageira. Quando saiu de casa dos pais, aos 27 anos, foi para viver com a namorada, com quem já tinha uma relação de oito anos. Era um plano a dois e todos os passos dados foram planeados ao milímetro. "O pensamento era esse: arrumarmos as nossas coisas e irmos à nossa vida." Ambos trabalhavam e, por conselho dos pais, compraram uma casa de duas assoalhadas em Loures, perto do sítio onde cresceram. Planearam que um dos ordenados teria de ser suficiente para pagar as contas, "já para o caso de um de nós ficar desempregado" - uma das decisões a dois mais importantes que tomaram, diz.

Viveram juntos dois anos, até que se separaram. De um momento para o outro, Ricardo viu-se sozinho como nunca tinha estado. A vida a dois tinha-se resumido a um só: ele próprio. "Não foi fácil." Ter casa cheia é uma das coisas de que mais gosta, por isso houve momentos, como a hora do jantar, que se tornaram estranhos. Aprendeu a preenchê-los e construiu à sua volta um espaço do qual hoje não prescinde. "Fui percebendo que morar sozinho é uma sensação única e é bom ser nesta altura."

Trabalha como responsável logístico numa empresa de marketing e publicidade, o primeiro trabalho estável que teve. Consegue pagar as contas, mesmo que tenha "tudo muito mais contado" - pedir emprestado aos pais está fora de causa. Voltar a partilhar o seu espaço não está fora de causa (ainda que tenha de ser "muito bem pensado"). Não só pelos momentos em que lhe falta companhia, mas porque sustentar uma casa não é tarefa simples. Esta é uma das razões para não haver mais pessoas a viver sozinhas em Portugal, segundo Rosário Mauritti. "Portugal está na cauda da Europa neste fenómeno por termos menos dinheiro." Com outras condições económicas, "haveria, entre jovens, sem dúvida, um maior número a viverem sozinhos". Olhando para outros países, e de acordo com um estudo da Euromonitor International, publicado este ano e citado pelo jornal britânico Guardian, o Reino Unido tem 34% das pessoas a viver sozinhas, e esse número aumenta quando se fala da Noruega (40%) e da Suécia (47%), que ocupa o topo.

Bo Söderberg, investigador sueco do Institute for Housing and Urban Research (IBF), da Universidade de Uppsala, aponta várias razões para os números da Suécia. "Um padrão de vida mais elevado permite que se façam escolhas livres. Isto significa que os jovens têm capacidade para ficar sozinhos por mais tempo. E as famílias também podem separar-se mais facilmente se não estão "forçadas a estar juntas" por razões económicas", explicou, por email, à revista 2. A oferta de habitação, assegurada através de programas públicos desde 1960, também pode facilitar o aumento de famílias unipessoais. E ainda outro motivo: uma taxa de emprego semelhante entre homens e mulheres. "Isto significa que, economicamente, as mulheres são tão independentes quanto os homens. Elas podem escolher onde viver, como viver e com quem viver. Por isso, o número de pessoas a viver sozinhas pode de alguma forma ser maior do que em países onde as mulheres não têm uma taxa de emprego tão elevada."

O investigador resume a tendência na Suécia: "Viver sozinho é, para muitas pessoas, um bem que tende a ser preferido, se o puderem pagar. Viver com mais gente é, para muitos, um problema a suportar quando não se pode comprar a alternativa preferida." Também Ulla Björnberg, professora e investigadora em Sociologia na Universidade de Gotemburgo, sublinhou o facto de a independência individual ter efeito nas políticas sociais, já que "a partir dos 18 anos é esperado que as pessoas se sustentem a si próprias", como explicou à 2.

Nos Estados Unidos, com cerca de 27% das pessoas a viver sozinhas, o livro do sociólogo americano Eric Klinenberg, Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone, lançado no início deste ano, veio alimentar o tema. Klinenberg analisou o impacto que o número de americanos a viver sozinhos tem na política ou na cultura. Contrariando a ideia de que este número representa necessariamente um aumento da solidão, o sociólogo defende que estas pessoas tendem a estar mais envolvidas social e civicamente, menos limitadas e com maior hipótese de escolha de companhia.

Em Portugal, a conversa muda quando a idade avança. Aos 37 anos, viver sozinho levanta outras questões. "Acho que a sociedade, quando vê uma pessoa que viva sozinha com a minha idade, pensa que ou é maluca ou tem algum problema", diz Márcia Mendes. São muitos os amigos, da sua geração, a viver sozinhos, portanto não são eles que perguntam por que razão não se casa. Mas há quem o faça. "Viver sozinho deve ser respeitado como uma opção", considera. "Se acontecer conhecer alguém, isso pode mudar, mas não é uma coisa que me preocupe."

Começou a viver só aos 25 anos, ainda que antes já tivesse partilhado alojamento com três primas, quando veio de Leiria para a universidade. A sua primeira casa foi "um telhado em Lisboa", com 30m2, cuja inauguração durou quase seis meses, "com jantares todas as semanas". Estava licenciada em Linguística e já tinha começado a trabalhar. "Não levei muito tempo a tomar a decisão de viver sozinha. Era algo que eu queria, precisava do meu espaço, das coisas escolhidas por mim, de poder pendurar quadros nas paredes. Quando escolhi a casa, disse: "Então vai ser este o meu primeiro espaço. É isto"." Escolheu dedicar-se por inteiro ao trabalho, passando muito tempo fora do país. O seu estilo de vida, explica, criou a necessidade de ter um porto de abrigo. "Tornamo-nos mais exigentes. Vamos criando hábitos e rotinas, deixamos de estar disponíveis para partilhar." Dentro de uma relação, nunca dividiu casa, e quando acontecer terá de ser necessariamente numa fase mais avançada de um relacionamento, "quando houver muita cumplicidade".

Gosta de jantar à frente da televisão, até porque normalmente o almoço é partilhado no trabalho com as colegas. Há outras coisas de que não abdica de fazer sozinha, como ir ao supermercado ou até à praia; com os amigos há as idas ao teatro, ao cinema ou a um concerto. Eles são parte da rotina e, por isso, quando há seis anos escolheu mudar para uma casa maior, tinha um requisito: uma sala enorme. "Sou muito sociável e só estou sozinha quando quero. Fazem-me falta as pessoas."

Lados negativos? "Às vezes custa-me não ter ninguém com quem comentar um filme ou uma música", responde. "Mas, ao mesmo tempo, se me apetecer chorar desalmadamente, também o posso fazer à vontade."

Ainda que há mais de dez anos não partilhe casa, não pára muitas vezes para pensar no assunto. "Sei que não tenho filhos e que não tenho muita família. Se continuar solteira e não conseguir viver com pessoas à minha volta, deixo a cidade e vou para a aldeia dos meus pais." Até porque há uma coisa de que não é capaz: viver isolada. "A solidão deve ser uma coisa horrível."

É uma das diferenças que Rosário Mauritti refere. Viver sozinho não é sinónimo de ser solitário ou estar isolado. "Frequentemente, é o inverso que acontece", escreve a investigadora no livro. "A possibilidade de escolha por uma vida independente acaba por promover uma intensificação dos laços e das trocas que se estabelecem na intimidade."

Também João Bessa, psiquiatra e investigador da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, destaca o peso que a personalidade tem na forma como uma pessoa, independentemente da idade, lida com ideia de viver sozinha. "Os traços de personalidade podem ser um factor facilitador", explica à revista 2, sublinhando ser essa uma variável importante quando está em causa a forma como são estabelecidos os laços sociais, baseados numa maior ou menor dependência na relação com os outros. Ainda que, sobretudo na população idosa, "a perda de familiares ou o isolamento sejam factores que predispõem ao desenvolvimento de estados depressivos", é essencial não generalizar a ideia de que viver sozinho é uma causa de depressão, considera João Bessa. A socióloga Rosário Mauritti vai mais longe: "Qualquer um pode sofrer de solidão mesmo estando envolvido em relações de conjugalidade ou parentalidade ou no seio de amigos."

Foi esse sentimento, em parte, que levou Jorge Romão a mudar de rumo. "Divorciei-me com a esperança de ser algo mais do que fui no meu casamento", conta, aos 41 anos. Acha que há um egoísmo maior do que o de querer viver sozinho: o egoísmo de querer uma família por ter medo de ficar sozinho. E apesar de todas as dúvidas, os últimos cinco anos sem partilhar casa foram tempo para muitas descobertas. "Uma grande conclusão: passar a ferro é uma actividade muito interessante, dá para pensar e tomar decisões." Ter sucesso num jantar preparado para amigos ou concluir que afinal é capaz de fazer tudo em casa são momentos especiais. Considera-se um dono de casa, "e sem aspas, porque o sou mesmo". É que até aos 31 anos viveu com a mãe e as irmãs, e "pouco fazia em casa". Namorou oito anos e casou-se, adaptando-se a uma vida a dois. Só que, cinco anos depois, tomou a decisão que já há tempo andava a crescer dentro dele: terminou o casamento e foi viver sozinho. Nunca tinha acontecido, embora desde muito novo procurasse tempos e espaços para si próprio. ""Tu gostas muito de estar sozinho", diziam-me os meus amigos, quando era mais novo."

Hoje, Jorge vive numa luta entre, por um lado, querer estar sozinho e achar que não são suficientes os momentos que tem para si próprio, e, por outro, vir a partilhar a vida com alguém. A vontade maior? Ter um filho. Portanto, o que conclui é que, excepto quando pensa no que ainda lhe falta viver, gosta de estar só. "Tenho necessidade de períodos de tempo só para mim, para poder fazer o que é diferente quando se vive com alguém, como ler ou escrever, deitar-me a horas mais tardias, levantar-me às horas que quero."

A casa onde vive, que vê como uma "habitação individual", pensada para si, é um espaço que não se imagina a partilhar. Refazer a vida e deixar alguém entrar nesse espaço terá de acontecer noutra casa, não naquela. Quanto aos amigos, recebe-os quando quer, e alguns deles, casados, dizem-lhe invejar a vida e a liberdade que ele tem. "Esta é uma boa fase da minha vida. Se calhar, um dia, virei a achá-la melhor ainda do que a vejo agora."

Rosário Mauritti conclui que a sociedade já não vê de forma negativa quem vive sozinho. Até porque, como escreve no livro, "se é verdade que ao longo de toda a vida adulta os indivíduos tendem a passar com maior frequência por experiências de residência unipessoal, isto não significa que estejam a ficar mais solitários ou que estejam a perder os laços de afinidade e de partilha na família e nas relações amicais".

Há o desejo de ter um espaço e um tempo não partilhados, embora nesse espaço também exista tempo para dúvidas e receios, seja aos 27 ou aos 83 anos. Susana conta que, no prédio em frente, vê todos os dias, de manhã à noite, uma senhora em casa, sentada ao pé da janela. "É muito velhinha, tem mais de 90 anos e passa os dias ali à janela a ler. Lê os jornais que o meu vizinho lhe leva, de uma ponta à outra, e depois passa o resto do dia a ler livros. Parece o negativo da minha vida." Jorge optou por escrever as suas "aventuras" a viver sozinho. Já Ricardo conclui que a mudança o fez aprender. "Gosto mais de mim mesmo." Nazaré Silva, para quem o último aniversário foi um dos dias mais felizes que já teve, confessa, sentada no cadeirão da sala e rodeada pelas fotografias dos casamentos dos netos, qual o seu próximo desejo. "Quando vier o Totoloto, compro uma casa no campo."

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS


EXTREME TOURS - WE LOVE SPORTS